14.12.05

O meu cone é maior que o teu

Sendo forçado pelas minhas obrigações académicas a transitar diariamente nas imediações da baixa lisboeta, assaltou-me a peregrina ideia de dar uma céptica espreitadela à pomposamente denominada "A Maior Árvore de Natal da Europa" que, depois de ter provocado o gáudio da populaça em Belém, se mudou este ano de armas e bagagens para o Terreiro do Paço. Mas se as expectativas, despojadas do seu crónico cepticismo pelo espírito da quadra, me pincelavam na mente uma espécie de sequóia festiva com um anjinho XL encarrapitado no topo, o que se me deparou na ex-governamental praça mais não era do que um cone gigantesco cravejado de lâmpadas.
Apesar de possuir a abertura de espírito suficiente para compreender que o epíteto "O Maior Cone Iluminado da Europa" seria eventualmente menos apelativo à curiosidade e imaginário gerais, não posso deixar de pensar que a verdade sem artifícios eufemísticos deveria ser o principal valor norteador destes eventos, pelo que sugiro a nomenclatura alternativa acima mencionada. Pese embora a quantidade de piadolas ordinárias que o nome desta inocente forma geométrica suscitaria nos mais alarves, esta inflexão de estratégia teria a vantagem inegável de abrir novas perspectivas de expansão e diversificação para os anos vindouros: que lisboeta não se orgulharia de poder afirmar à boca cheia ter na sua cidade "O Maior Paralelipípedo Iluminado do Mundo", ou até, quiçá "O Maior Cilindro Pintado à Pistola do Hemisfério Norte"?

13.12.05

Cartões de Natal (em movimento)

No prosseguimento das tréguas natalícias previamente encetadas, dando pausa ao meu amado mal-dizer arbitrário, continuo a listar alguns objectos ou acontecimentos que ainda fazem a vida valer a pena… e muito. E agora o cinema:

A Pianista, de Michael Haneke (2001): Isabelle Huppert revisitada por Haneke, ou como transformar uma obra da amorfa Jelinek num compêndio estarrecedor de uma normalidade psicótica.

Touch of Evil, de Orson Welles (1958): desde a abertura em travelling prolongado sobre um insuspeito Charlton Heston mexicanizado até um duelo final mais travado entre luz e sombra (literalmente) que entre bem e mal, é a obra maior de Orson Welles e a mais subvalorizada.

Cidade de Deus, de Fernando Meirelles (2002): com uma fotografia e uma montagem assim, só um inepto se sairia mal. Brilhante deconstrução do defunto neo-realismo cinematográfico.

Trilogia O Padrinho, de Francis Ford Coppola (1972 a 1990): porque Al Pacino era actor, pelo tom fúnebre da fotografia escurecida, pelo fade-in que nos introduz, pela porta que se fecha suavemente, por Marlon Brando, porque tem Lee Strasberg, porque é genial e porque sim.

O Tempo dos Ciganos, de Emir Kusturica (1988): uma obra-prima absoluta cria os seus próprios padrões e linguagens, define a cosmogonia que a rege; esta é a obra-prima absoluta feita cinema, o mais Kusturica de todos os Kusturicas no mais pungentemente belo filme de todos os filmes belos.

Menções honrosas:
Ondas de Paixão, de Lars von Trier (1996)
Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson (1997)
Código Desconhecido, de Michael Haneke (2000)
Rosetta, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne (1999)
Paris, Texas, de Wim Wenders (1984)
As Asas do Desejo, de Wim Wenders (1987)
Ran, de Akira Kurosawa (1984)
Trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson (2001 a 2003)
Seven, de David Fincher (1995)
Shining, de Stanley Kubrick (1980)
Dr. Estranhoamor, de Stanley Kubrick (1964)
2001, Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (1968)
A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)
Tudo Bons Rapazes, de Martin Scorsese (1990)
O Rei da Comédia, de Martin Scorsese (1983)
Felicidade, de Todd Solondz (1998)
Safe, de Todd Haynes (1995)
Velvet Goldmine, de Todd Haynes (1998)
Underground, de Emir Kusturica (1995)
Um Coração Selvagem, de David Lynch (1990)
Dead Man, de Jim Jarmusch (1995)
Ghost Dog, o Método do Samurai, de Jim Jarmusch (2001)
Freaks, de Tod Browning (1932)
Mãe e Filho, de Aleksandr Sokurov (1997)
O Ódio, de Mathieu Kassovitz (1995)
A Caixa, de Manoel de Oliveira (1994)
Annie Hall, de Woody Allen (1977)
Toda a gente diz que te amo, de Woody Allen (1996)
Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola (1979)
Bram Stoker’s Dracula, de Francis Ford Coppola (1992)
A Barreira Invisível, de Terrence Mallick (1998)
Batman Regressa, de Tim Burton (1992)
O Estranho Mundo de Jack, de Tim Burton e Henry Selick (1993)
O Bom, o Mau e o Vilão, de Sergio Leone (1966)
Disponível para Amar, de Wong Kar-Wai (2000)
O Funeral, de Abel Ferrara (1996)
Herói, de Zhang Yimou (2002)
M, de Fritz Lang (1931)
O Homem da Câmara de Filmar, de Dziga Vertov (1929)
O Mundo a seus Pés, de Orson Welles (1941)
A Sombra do Caçador, de Charles Laughton (1955)
Nosferatu, de F. W. Murnau (1922)

10.12.05

Cânticos Natalícios



















E porque há vida para além da Madonna, Robbie Williams e outros actos terroristas, cinco discos de música pop que me deixam desconfortavemente bem com a vida:

Odelay, de Beck (1996): a resenha de uma vida de absorção da mais profunda americana, onde a contry folk combate o hip-hop e o rock mais bluesy no aparelho digestivo dos guetos de Los Angeles. O feel-good album dos anos 90, em estado de graça.

Doolittle, dos Pixies (1989): Un Chien Andalou, do Buñuel. Para todos os outros, Debaser.

Elephant, dos The White Stripes (2003): e será preciso mais do que uma bateria, uma guitarra, muitos pedais e dois alienados?

Beautiful Maladies, de Tom Waits (1998): a colectânea que reúne o melhor dos anos passados a gravar para a Island Records pelo maior músico americano das últimas 2 décadas é fundamental, e quem não a possui contribui irremediavelmente para o embrutecimento geral da espécie humana.

Ladies and Gentlemen, we are floating in space, dos Spiritualized (1997): ninguém sabe se é a uma beleza caótica ou o caos do belo, sabe-se apenas (e está cientificamente demonstrado) que é o melhor album alguma vez gravado.

Menções honrosas:
Le Temps des Gitans, de Goran Bregovic (1990)
Homogenic, de Björk (1997)
Felt Mountain, dos Goldfrapp (2000)
Antichrist Superstar, dos Marilyn Manson (1996)
Fly or Die, dos N*E*R*D (2004)
Henry’s Dream, de Nick Cave & The Bad Seeds (1992)
The downward spiral, dos Nine Inch Nails (1994)
Screamadelica, dos Primal Scream (1992)
OK Computer, dos Radiohead (1997)
Rage Against the Machine (1992)
Agaetis Byrjun, dos Sigur Ros (2000)
Pre-millennium tension, de Tricky (1996)
Gorillaz (2001)
Franks Wild Years, de Tom Waits (1987)

Exercício semelhante para cinema em data a determinar pela minha volúvel vontade.